O estilo de vida atual causa mais mortes no Brasil do que as infecções associadas à pobreza. Cuidado para não se tornar uma vítima.
Anna Paula Buchalla e Karina
Infográfico sobre fotos de Iugo Koyama/Nani Gois/Célia Satto/Marcelo Cabral/Zeca de Sousa
Assim como acontece no plano da economia, dois Brasis coexistem na área da saúde. O primeiro, velho conhecido, é aquele da esquistossomose, da febre amarela e da subnutrição infantil, entre outras pragas do subdesenvolvimento. O segundo, para o qual ainda não se dá a devida atenção, é o do stress, do sedentarismo e da gordura. Neste aspecto, a semelhança com os Estados Unidos está longe de ser uma coincidência. O processo de industrialização e urbanização verificado nos últimos quarenta anos fez com que a modernidade também exibisse por cá a sua face sombria. Porque se alimentam mais de comida industrializada, dispõem de inúmeros confortos no cotidiano e trabalham num ritmo alucinante, os brasileiros estão mais gordos, inativos e estressados do que nunca (veja quadros nestas páginas). O país de feições americanas, e não o de traços indianos, é que tira o sono dos médicos. Explica-se: as doenças infecciosas, ligadas à pobreza, estão matando menos. Bem menos. Em 1950, elas correspondiam a 36% do total de óbitos no Brasil. Hoje, essa cifra gira em torno de apenas 6%. Nas grandes cidades, principalmente, a maioria das pessoas morre de complicações cardíacas, de câncer (pulmão, mama, próstata e estômago são os mais comuns) e de diabetes tipo 2. Essas enfermidades são a pior tradução do estilo de vida atual. Não é conversa fiada, não.
Segundo pesquisadores da Universidade Stanford, na Califórnia, uma das mais respeitadas dos Estados Unidos, o estilo de vida é o fator que mais pesa para que uma pessoa consiga ultrapassar os 65 anos. As condições de meio ambiente, a herança genética e uma boa assistência médica têm uma influência pequena nesse sentido (veja gráfico). Se uma pessoa se alimenta só com porcarias, não faz ginástica e é um poço de nervosismo, o risco de morrer mais cedo cresce exponencialmente. Não importa se ela mora numa casa com um quintal cheio de árvores, tem pais e avós longevos e seu plano de saúde é maravilhoso.Aqui, um parêntese. Uma charge americana, publicada há alguns anos, mostrava dois homens pré-históricos conversando à entrada de uma caverna:
– Nós temos um dia-a-dia extremamente saudável. Respiramos ar puro, fazemos exercícios físicos diários e só comemos alimentos sem conservantes – dizia um.
– Pois é, ainda assim morremos antes de chegar aos 30 anos – respondia o outro.
Jader da Rocha
A professora paranaense Guiomar Cunha: "Eu achava que infarto era coisa de homem."
A piada faz troça dos naturebas que acreditam que o passado pré-industrialização hospedava o paraíso terrestre. É uma bobagem da qual o diálogo acima dá conta com muita graça. Os ganhos na área da saúde proporcionados pela modernidade são incomensuravelmente maiores do que os danos causados por ela. Numa rápida pincelada, a história da medicina registra três saltos num curto espaço de tempo: a revolução sanitária, a imunológica e a dos antibióticos. A simples introdução dos hábitos de higiene no dia-a-dia eliminou infecções que, do alvorecer da humanidade até o final do século XIX, ceifaram bilhões de vidas, sob a forma de endemias ou de pestes avassaladoras. Por sua vez, as vacinas desenvolvidas a partir do início do século XX reduziram a mortalidade de maneira assombrosa. Finalmente, a terceira revolução, a dos antibióticos, que tomou corpo na década de 40, diminuiu drasticamente a possibilidade de morrer de pneumonia, tuberculose, sífilis e tifo, alguns dos males que liquidaram boa parte dos nossos antepassados.
Paciente teimoso – Apesar de ainda haver um expressivo contingente de vírus e bactérias a ser derrotado, a verdade é que o grande adversário dos médicos não habita mais o universo microscópico. Ele está personificado no paciente que teima em não mudar a sua forma de viver. Mas quem disse que é fácil seguir o conselho do pessoal de branco? A civilização tecnológica parece ter o objetivo velado de entupir artérias e fazer brotar tumores. A lei do mínimo esforço eliminou até mesmo as manivelas dos vidros dos carros, substituídas por dispositivos elétricos. Os almoços caseiros saíram de cena, para dar lugar às refeições desbalanceadas, engolidas às pressas nos balcões das lanchonetes. E a competição acirrada no mercado de trabalho resulta em expedientes cada vez mais longos, que esgotam física e mentalmente. Em comparação aos anos 60, os níveis de stress estão hoje 50% mais altos. É aí, em geral, que entra o cigarro. A despeito das campanhas antitabagistas, ele continua a ser o principal paliativo para a ansiedade. Bom para aliviar a tensão, péssimo para todo o resto. Só para ficar em um exemplo, um terço dos tumores malignos tem no tabaco a sua causa principal. No que se refere ao câncer de pulmão, 85% dos casos são atribuídos ao fumo.
Ricardo Benichio
O estudante paulista Jefferson: aos 23 anos, diagnóstico de diabetes tipo 2.
Pois bem, embora tudo conspire contra, aqui vai um reforço: você não só tem de mudar de vida, como deve fazê-lo urgentemente. As doenças da modernidade estão deixando de acometer somente os que têm mais de 40 anos. Pessoas mais jovens também começam a padecer delas. O diabetes do tipo 2, que até pouco tempo atrás era chamado de "diabetes senil", já é diagnosticado entre crianças. Motivo: excessos calóricos na alimentação e sedentarismo. A dieta excessivamente gordurenta contribui, ainda, para que mulheres na faixa dos 20 anos desenvolvam câncer de mama. O mesmo vale para o câncer de próstata, que passou a ser diagnosticado em degraus mais baixos da pirâmide etária. Desde que se emanciparam e entraram para valer no mercado de trabalho, as mulheres também rivalizam com os homens nos índices de doenças cardíacas. Na década de 60, elas respondiam por 10% da incidência de enfermidades cardiovasculares. Agora, essa fatia é de 25%. Levar a população como um todo a adotar hábitos mais saudáveis representaria um salto para a medicina tanto quanto o foram a higiene, as vacinas e os antibióticos.
Obesidade epidêmica – Um bom estilo de vida, enfatize-se, significa alimentação equilibrada, exercícios físicos regulares, nada de cigarro e tensão controlada. A receita é manjada, mas o que pouquíssima gente sabe é que ela deve começar a ser seguida desde a infância, e não apenas quando o organismo adulto dá sinais de que não vai bem. Crianças que passam o dia inteiro em frente à televisão e se entopem de guloseimas tendem a ser adultos sedentários e obesos. Com isso, têm mais probabilidade de ser vitimadas por doenças sérias antes que consigam chegar à terceira idade. Estudos mostram que o excesso de gordura é diretamente responsável por 30% das mortes de pessoas com menos de 45 anos. Nos Estados Unidos, já virou um assunto de saúde pública. A obesidade, por lá, atinge níveis epidêmicos: mais de um terço da população está acima do peso. Aliás, bem acima. Quem já foi a um parque de diversões da Flórida sabe que uma atração à parte é a multidão de americanos gordalhões que ali circulam. O Brasil, infelizmente, está na mesma trilha. O país conta com 30 milhões de obesos. Trinta milhões! Nos últimos vinte anos, o número de mulheres gordas aumentou 40% e o de homens gordos, 30%. Entre as crianças, a quantidade de obesos quintuplicou. Não é para menos: as gorduras somam mais de 30% da nossa dieta calórica, e esse número tende a aumentar com a multiplicação dos fast foods.
Um organismo recheado de células adiposas é o cenário ideal para o desenvolvimento do diabetes tipo 2. A propensão ao acúmulo de açúcar no sangue é genética, mas nesse caso é possível evitar que ela se transforme num problema. Basta ter moderação à mesa. Dietas gordurosas detonam a doença. Ou seja, não é uma coincidência que 80% das vítimas de diabetes tipo 2 pesem além do tolerável. A Associação de Diabetes dos Estados Unidos já fez soar o alarme: três de cada dez pacientes naquele país têm entre 9 e 19 anos. Na década de 80, eles não passavam de 2%. É assustador que uma doença antes associada à velhice comece a se manifestar tão cedo.
Claudio Rossi
A economista Simone: aos 27 anos, susto e perplexidade ao receber a notícia de que havia desenvolvido um câncer de mama.
Há cerca de um ano, o estudante Jefferson Eduardo de Souza recebeu o diagnóstico de que estava com diabetes tipo 2. Tinha na época 23 anos. Sedentário, com 109 quilos mal distribuídos por 1,83 metro, Jefferson raramente fazia uma refeição decente. Preferia se entupir de biscoitos doces. Os primeiros sintomas da doença surgiram sob a forma de um cansaço permanente, de uma sede insaciável e de uma necessidade recorrente de urinar. Jefferson teve de perder 26 quilos e agora controla os níveis de açúcar no sangue com um comprimido três vezes por dia, refeições ricas em verduras, legumes e frutas e exercícios físicos. Seu estado de saúde é bom, mas ele carregará o diabetes tipo 2 para sempre. Assim como o tipo 1, de nascença, trata-se de uma enfermidade sem cura. Deixada a seu próprio curso, a doença pode ser fatal. Nos últimos dez anos, o número de óbitos decorrentes do diabetes tipo 2 cresceu 60% no Brasil. Hoje, são em média 25 000 mortes por ano – quase o mesmo total de mortes registradas em acidentes de trânsito no país. Em sua forma mais agressiva, o diabetes tipo 2 causa falência renal e infarto. Isso porque a glicose excessiva lesiona as paredes dos vasos sanguíneos e obstrui pequenas artérias.
Bicho preguiça – Uma das medidas mais eficazes de combate ao diabetes é a ginástica. Os exercícios aumentam a capacidade de as células absorverem insulina, o hormônio que regula a quantidade de açúcar no sangue. Movimentar-se é uma arma e tanto no combate às doenças da modernidade, mas estamos nos mexendo cada vez menos. Nas maiores cidades brasileiras, como São Paulo, sete de dez pessoas são tão ativas quanto um bicho preguiça. Culpa dos eletrodomésticos com controle remoto, dos telefones sem fio, dos acessórios que induzem ao sedentarismo. A título de ilustração: o sedentário de hoje, que tem à disposição um sem-número de engenhocas eletrônicas, gasta 300 calorias diárias a menos do que um sedentário de 1970. Ao final de um ano, isso representa 12 quilos. A inatividade física reduz em até três anos a expectativa de vida. Está relacionada a 35% das mortes por diabetes e a 35% dos óbitos por distúrbios cardiovasculares. Engana-se quem imagina que são necessárias horas de suadouro em uma academia para deixar o clube dos lerdos. Com a queima diária de 150 calorias, deixa-se de pertencer à categoria dos sedentários. A prática regular de exercícios físicos (sessões de meia hora, quatro vezes por semana, no mínimo) estimula a irrigação sanguínea e, conseqüentemente, a oxigenação de todos os órgãos – e oxigênio é vida. A ginástica também reduz os níveis de gorduras perniciosas no sangue e aumenta em até 30% o índice de HDL, o colesterol bom, que limpa as artérias.
Ricardo Benichio
O médico Celso Fiszbeyn: rotina estressante, carne vermelha, cigarro e câncer de próstata aos 51 anos.
Fatores externos, ligados a mudanças de comportamento, também estão na origem de boa parte dos diagnósticos de câncer de mama, a neoplasia mais comum e letal entre as mulheres – 35 000 novos casos e 8 500 mortes estimados para este ano no Brasil. Os médicos chegaram à conclusão de que o componente genético é apenas um elemento dessa equação perversa. Está provado que a vida moderna faz com que as mulheres menstruem mais cedo e seu organismo adie a menopausa. Além disso, como a prioridade deixou de ser o casamento e passou a ser a carreira profissional, elas estão tendo filhos mais tarde – e poucos. Para se ter uma idéia, no tempo de nossas avós, quando o costume era emendar uma gravidez atrás de outra, as mulheres tinham, ao longo de toda a vida, cinqüenta menstruações. Atualmente, elas menstruam até 400 vezes. Pois bem, o resultado é que ficam mais expostas à ação do estrógeno. É um perigo. O bombardeio constante do hormônio aumenta em 60% os riscos do câncer de mama. Por uma razão simples: o estrógeno é responsável pela multiplicação das células mamárias. Quanto mais intensa a proliferação celular, mais probabilidade de ocorrer "erro" nesse processo, o que pode levar ao surgimento do tumor. Quando uma mulher engravida ou amamenta, os níveis do hormônio caem drasticamente. O mapa do câncer de mama no Brasil mostra que a incidência é maior no Sul e Sudeste, justamente onde se concentram as maiores cidades e a agitação cotidiana é mais intensa. É nessas regiões, principalmente, que o câncer de mama começa a aparecer em moças na faixa dos 20 anos.
Em 1998, quando contava 27 anos, a economista Simone Pasianotto recebeu a notícia de que tinha câncer de mama. Ficou tão apavorada quanto surpresa. Para ela, era uma doença que só acometia mulheres acima dos 40 anos. Hoje, no entanto, reconhece que é um exemplo clássico de como a combinação de vários fatores pode causar o aparecimento da doença. Solteira e sem filhos, Simone trabalhava catorze horas por dia, só comia sanduíches e não relaxava um minuto. Resumindo: era uma bomba de estrógeno e de stress. Submetida a uma cirurgia que lhe extirpou um quarto de uma das mamas, conseguiu escapar da morte. "Depois de todo aquele sofrimento, resolvi desacelerar meu ritmo", diz Simone.
Churrasco e sal – Até a década de 70, o mais comum dos cânceres masculinos – o de próstata – dificilmente era detectado em quem tinha menos de 65 anos. O quadro está mudando. Homens relativamente jovens passaram a ser atingidos por esse mal. O médico Celso Fiszbeyn teve um tumor diagnosticado aos 51 anos. Seu histórico familiar era ruim, mas o estilo de vida de Fiszbeyn, fumante inveterado e fanático por churrasco, certamente influiu bastante. Uma maneira de prevenir-se da doença é cortar ao máximo o número de bifes sangrentos da dieta habitual. A carne vermelha, acreditam os médicos, ativa indiretamente a produção de testosterona, o hormônio que acelera o aparecimento de câncer de próstata em pacientes com predisposição à doença. A conclusão foi tirada de um estudo realizado com imigrantes japoneses nos Estados Unidos. Os pesquisadores constataram que, nesse grupo, a ocorrência da enfermidade era bem maior que no Japão. Motivo: a adoção dos hábitos carnívoros ocidentais. Antes de abandonar-se ao pecado da carne, prezado leitor, tenha em mente que o câncer de próstata teve a sua taxa de óbitos dobrada de vinte anos para cá. Outro tumor maligno que atinge muitos brasileiros é o de estômago. A doença está intimamente ligada à alimentação. Uma de suas causas é o excesso de sal, característica das comidas servidas em lanchonete. O sal provoca pequenas feridas na parede do estômago, e essas irritações podem transformar-se em câncer. O consumo per capita no Brasil é de 12 miligramas diários, uma quantidade seis vezes superior à recomendada pela Organização Mundial de Saúde.
Até pouco tempo atrás, o coração das mulheres só era frágil no terreno da literatura. No campo da medicina, problemas cardiovasculares eram quase que uma exclusividade masculina. Com a emancipação feminina, porém, elas ficaram tão suscetíveis quanto eles a infarto e coisas do gênero. No passado, a proporção de doentes era de uma mulher para nove homens. Hoje, é de uma para três. As mulheres não só enfrentam as mesmas pressões profissionais e sociais do sexo masculino como andam fumando como chaminés. Todo mundo sabe que a química do cigarro é uma tremenda inimiga do coração, já que aumenta a pressão arterial, facilita o depósito das placas de gordura nas artérias e danifica as paredes dos vasos sanguíneos. O fato pouco conhecido é que, no organismo feminino, ela também desregula os níveis de estrógeno, de uma forma que multiplica a probabilidade de um ataque cardíaco. Vilão do câncer de mama, o hormônio na quantidade exata é um elixir para o coração: impede o acúmulo de colesterol ruim nas artérias. Como se não bastasse, é mais difícil para a mulher abandonar o vício. Durante dois anos, entre 1993 e 1995, a médica Jaqueline Scholz, coordenadora do Ambulatório de Tabagismo do Instituto do Coração de São Paulo, acompanhou 100 fumantes de ambos os sexos. Depois de um ano, 40% haviam deixado de fumar graças ao uso de adesivos de nicotina. Dentro desse universo, a maioria era composta de homens. Uma possível explicação para o fato é que, entre as mulheres, o cigarro ainda está intimamente associado à idéia de independência, autonomia e sex appeal. É o que diz um relatório da Organização Mundial de Saúde. E, não esqueçamos, ajuda a perder uns quilinhos.
"Pensei em tudo, menos que aquela dor, suor e tontura poderiam ser sinal de um problema cardíaco", lembra a professora Guiomar Cunha. Com apenas 35 anos, ela foi vitimada por infarto. Na época, Guiomar trabalhava em um ritmo alucinante, se empanturrava de doces e fumava mais de um maço e meio por dia. "Eu tinha de provar que era eficiente", conta. "Era obcecada pela perfeição. Me cobrava demais." Não se trata de uma característica individual: a necessidade de afirmar-se num mundo ainda dominado pelos homens faz com que muitas profissionais se estressem mais que seus colegas. Uma pesquisa realizada na Inglaterra, com jovens profissionais de ambos os sexos, revelou que 64% das mulheres sofriam de algum tipo de esgotamento, contra 55% dos homens. Mulher não costuma sair mais cedo do batente para tomar um chopinho, dificilmente tem hobby e – algo bem pouco moderno – tem de cumprir uma série de afazeres domésticos depois do expediente. Haja coração.
Esta reportagem teve como consultores os médicos Alfredo Barros, Eric Wroclawsky, Mário Maranhão, Mário Mourão Netto, Paulo Lotufo e Simão Lottenberg.










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